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19 jan 2015

A maldição do Vale do Silício

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“Para a construção de um ambiente inovador que oriente o desenvolvimento de um país é crucial que sejam observadas as especificidades e condições locais.”

 

O Vale do Silício, região que engloba diversas cidades na Califórnia, é reconhecido internacionalmente como um dos principais endereços da indústria de tecnologia e tido como um modelo para o desenvolvimento de clusters no mercado globalizado. Além de um incrível ponto turístico, sua história é um excelente estudo de caso para entender a relação entre um ambiente de inovação e crescimento econômico. A proximidade com a Universidade de Stanford, que formou profissionais talentosos e inovadores, junto do financiamento do governo federal norte-americano para a instalação de laboratórios de defesa e instalações fabris foram fatores que aceleraram o desenvolvimento deste hub.

O Vale do Silício se tornou o ponto convergente de diferentes estratégias que tinham como finalidade o desenvolvimento econômico regional. Tecnologias e mercados avançaram de forma tão acelerada que às vezes temos a sensação de que o relógio deles está mais adiantado que o do resto do mundo e, por isso, lideram, em muitos casos, a vanguarda tecnológica. Nesse sentido, deve ser destacada a importância da relação próxima entre as empresas e as universidades e centros de pesquisa que definem metodologias de trabalho e aceleram a criação do conhecimento.

No entanto, a maior vantagem competitiva do Vale do Silício não é definida pelos seus avanços tecnológicos, mas sim pela cultura altamente especializada que cultua o progresso e facilita a aplicação de novas tecnologias em empreendimentos bem sucedidos. A força de trabalho, além de ser mais jovem, é mais altamente qualificada se comparada com o restante da população norte-americana. É um grande chamariz para talentosos profissionais de todo o mundo. Também merece ser destacado o espírito empreendedor e a disposição desta população para assumir riscos, elementos fundamentais para o reconhecimento da região como referência em inovação e empreendedorismo.

Ainda que o Vale do Silício seja um caso indiscutível de sucesso na criação de um ambiente inovador e competitivo, é importante ter cautela ao pensar que esse modelo pode ser facilmente replicado em outros lugares do planeta. A receita de um local onde há a combinação de universidades de ponta, start-ups e capital de risco nem sempre é a mais adequada.

Infelizmente, a maioria dos países, principalmente os subdesenvolvidos, não tem universidades e centros acadêmicos de excelência. Muito menos, capital abundante para investir em jovens empreendedores. Alguns especialistas apontam para a existência de uma “maldição do Vale do Silício” que orienta muitos países a adotarem políticas públicas ineficazes de incentivo ao empreendedorismo. Além disso, muitos empreendedores se espelham em casos de sucesso no Vale do Silício com exits exorbitantes e acreditam que poderão facilmente replicar esses modelos localmente e obter o mesmo sucesso. Existem alguns modelos que podem se sobressair em ambientes econômicos menos desenvolvidos e com alto grau de incerteza:

  • Modelo de uma empresa âncora, onde há uma relação de spin off de uma grande empresa local que atua como provedora de capital semente à formação de pequenas empresas. Assim, ao buscar desenvolver fornecedores e encontrar novas soluções em mercados, grandes empresas podem fomentar o crescimento do ecossistema empreendedor;
  • Investir na formação da cultura empreendedora de um país, capacitando através de ferramentas, cases, contato com empreendedores e mentores. Esse é um importante caminho para oferecer oportunidades na abertura de novos negócios tanto por oportunidade quanto por necessidade.

De qualquer forma, é importante ter em mente que qualquer caso de ecossistema empreendedor de sucesso, seja o do Vale do Silício, Bangalore (Índia), Silicon Wadi (Israel) ou Seul (Coréia do Sul) somente aconteceu devido à combinação de fatores específicos e particulares de cada local. O aspecto mais fundamental não é copiar os modelos e tomar ações genéricas. Para a construção de um ambiente inovador que oriente o desenvolvimento de um país é crucial que sejam observadas as especificidades e condições locais. Somente assim, será possível aproveitar a vocação econômica regional e potencializá-la a partir de uma mão-de-obra qualificada imersa em um contexto criativo e inovador.

 

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